NÁUFRAGO EM MIM

Por Marcio Harum

Em torno do conjunto de pinturas reunidas para a exposição individual NÁUFRAGO EM MIM de Evandro Angerami, os trabalhos, todos datados de 2017-18, exibem uma presença pictórica de figuras que se assemelham a exuberantes icebergs; ora a formações iluminadas de quartzo pontiagudos, e por vezes remetem a lembrança de fachadas de uma arquitetura de características marcadamente soviética. Nuances de paisagens emocionais internalizadas são rememoradas certamente pelo fato do artista haver realizado viagens de pesquisa a Rússia nos últimos anos. Por esta razão, tal carga tão densa talvez tenha sido impressa indelevelmente ao imaginário artístico de Angerami. O que conduz a nossa atenção nesta mostra é sem dúvida o contato visual com silhuetas humanas indecifráveis, nas quais o artista vem se utilizando de uma definição propriamente chamada por ele de “paisagens das pessoas”.

Um sopro de memória surge repentinamente em meio as pinturas que estão sendo apresentadas; uma ligação misteriosa reaviva a atmosfera futurista dark de imagens em movimento de filmes míticos do expressionismo dirigidos por mestres do cinema dos anos 1920. Angerami possui uma interessante bibliografia de referência, com publicações de iconografias eslavas – e igualmente de pintores russos que lhe atraem por sua síntese e textura – artistas que atuaram entre os períodos do império dos czares e o do pós- revolução russa de 1917.

A sensação atemporal que a exposição NÁUFRAGO EM MIM provoca é a da passagem de luz gerada numa estreita fenda por uma estranha e disforme geometria.

 

PAISAGENS HUMANAS

por Oscar D’Ambrósio

 

Paisagens nada mais são do que percepções de mundo. E isso não é pouco. Ao se observar atentamente as pinturas do artista visual Angerami é possível perceber um movimento interno que resulta numa construção plástica em que a técnica encontra a humanidade. Por isso, as suas pinturas emocionam. São paisagens humanas.

Ocorre um processo de composição em que a tinta, as formas, as cores e ois materiais estão em consonância. O que se vê um amalgamar de um pensamento. As áreas são definidas ou diluídas de acordo com o que cada trabalho pede num andamento musical, em que cada novo trabalho não é a repetição do anterior, mas um passo adiante.

Trata-se muito mais do que uma discussão entre figuração e abstração ou impressão e expressão. O que está em jogo é uma interpretação do mundo que vem de dentro para fora, mas que permanece aberto aos estímulos externos. Surge assim uma obra permeável a mudanças e transformações, num jogo que olha sempre para o futuro.

Os planos obtidos são muito peculiares, pois se valem de diversos procedimentos, que vão do uso da vassoura para pintar à utilização de folhas de ouro. Tudo contribui para que Angerami apresente constantes novidades rumo a um amadurecimento permanente como pintor e ser humano, em busca de uma melhoria existencial constante.

 

A POÉTICA DO SILÊNCIO

por Oscar D’Ambrósio

 Mario da Silva Brito, em seu Diálogo intemporal, aponta que “o homem moderno perdeu o prazer do silêncio”. Essa afirmação torna-se ainda mais instigante quando se pensa nas artes plásticas, pois não são poucos os que sempre esperam encontrar em pinturas e instalações uma visão explosiva e expressionista da realidade, tendo dificuldade em conviver com aqueles trabalhos que estimulam a interiorização do ser.

O artista que consegue passar para o seu trabalho um sentimento de silêncio e de ampla respiração vence um desafio. Constrói, por meio de recursos plásticos, uma criação que transmite um sentimento de vazio existencial, que se preenche no momento em que o quadro é observado, revelando um processo de amadurecimento visual e um domínio na conjugação de diversas imagens.

As telas de Evandro Angerami atingem justamente esse diálogo com o silêncio graças à habilidade de trabalhar com espaços amplos, em que a terra e o céu se articulam de modo a combinar-se numa espécie de paisagem que estimula a reflexão e propicia a passagem para uma nova dimensão.

O resultado alcançado é a cristalização de um processo de construção da própria obra que passa por um progressivo mergulho no universo de valorização da técnica, dos materiais e da imagem como procedimento artístico e existencial.

Angerami estabelece um reino de imagens de praias vazias de pessoas, nas quais a areia dialoga com alguma vegetação e com o céu, muitas vezes pontuado por estrelas que, em branco ou revelando o próprio fundo da tela, criam atmosferas de observação e harmônico equilíbrio.

No segundo ato do Conto de Inverno, Shakespeare escreveu que “Onde, por vezes, a palavra falha/ O silêncio da pura inocência convence”. A obra de Evandro Angerami obtém esse resultado. Sua busca pela poética do silêncio e pela estética da respiração mais pura possível recupera, em cada tela, o prazer de criar e de estimular o espectador a se debruçar sobre os próprios valores, questionando o que significam a arte e a vida.

Para isso, o silêncio que as suas telas geram no ato da contemplação constituem um sutil ensinamento: o de que a grande arte não precisa de barulho para ser criada ou vista, sendo, quando sincera, geralmente, o resultado de uma falta de ruído, existente entre o antes e o após do processo criativo.

Quando é resultado dessa respiração que o pintor dá a si mesmo, os trabalhos que se contemplam de um artista, como é o caso das imagens de Angerami, não têm só qualidade, mas o lirismo daquilo que o artista consegue fazer com a sua sensibilidade, cada vez mais aprimorada somada aos recursos técnicos aprendidos ao longo da carreira.         

          

A ANGERAMI: MUITO MAIS QUE MARINHAS

por Oscar D’Ambrósio

Quando se observa o trabalho do artista plástico Evandro Angerami, tem-se a primeira impressão de que se está perante um conjunto de marinhas. Trata-se apenas de uma visão apressada. O que se encontra ali é pintura. E ela não está só. Vem repleta de expressividade, lirismo e espiritualidade.

Não se trata de uma experiência mística no sentido de propiciar o acesso a um portal que leva a outro mundo, mas sim no aspecto de constituir um exercício plástico infinito, uma pesquisa para toda a vida em busca das respostas que suportes, tintas e materiais darão às perguntas do artista.

Prestes a embarcar para realizar uma pós-graduação no EUA, Angerami oferece o que tem de melhor. Suas paisagens foram enriquecidas, em 2007, pelo uso cada vez mais consciente dos brancos. Seja nos trabalhos in loco, em locais como Praia Grande, SP, ou Salvador, BA, realizados no ateliê ou iniciados ao vivo e desenvolvidos posteriormente na Capital.

O artista começou conhecendo o céu, passou depois para as nuances do mar e se debruça, nos trabalhos mais recentes, na areia, em suas texturas, planos e movimentos. O resultado revela um pesquisador nato, que descobriu no ato de pintar ao vivo uma forma de aprimorar a técnica e de namorar o objeto sob sua visão.

Por mergulhar intensamente nas marinhas, Angerami consegue imagens que perdem o caráter local. Tornam-se universais não por poderem estar em qualquer lugar, mas por serem fruto de uma percepção que as coloca dentro de cada um de nós. Assim, deixam de ser marinhas e passam a ser fenômenos pictóricos de pinceladas, relevos, volumes e texturas de um artista que enfrenta tanto a chuva para pintar na praia como o preciosismo técnico do ateliê na escolha dos materiais.

Angerami parte do conhecimento do ver e do pintar para o fazer. Trata-se de uma ação progressiva em que esses três fatores vão se intercalando e cruzando em nome de uma prática artística consciente e perturbadora. As marinhas não são só marinhas. São expressões da natureza universal e local. Incorporam o gesto do artista inserido em seu espaço-tempo e apontam para pesquisas futuras com desdobramentos ainda incertos, mas certamente instigantes.

 

ESPAÇOS INFINITOS E HORIZONTES CONSTITUEM A EXPRESSÃO VIVA DA PINTURA CRISTALINA DE ANGERAMI

por Emmanuel Von Lauenstein Massarani

Museu de Arte do Parlamento de São Paulo

O mundo pictórico de Angerami não é o da realidade atual. Enquanto as cidades se tornam inóspitas e fomentadoras de violências e neuroses, a tendência das obras desse artista é restituir as coisas ao homem na sua primitiva pureza.

O jovem Angerami busca a essência da natureza e pinta paisagens infinitas, que se perdem da vista d’olhos até a linha do horizonte. Suas cores, vibram na luz intensa e as formas se fundem. Os espaços infinitos e os horizontes longilíneos constituem a expressão viva e palpitante da pintura cristalina de Angerami.

Trata-se de um pintor liberado do ritmo frenético, da febre dos nervos, da tristeza, mas envolvido pelo exemplo de uma existência diferenciada e em direção a um novo equilíbrio, de pleno acordo consigo próprio e em harmonia com o mundo.

O segredo e a sugestão do envolvimento de Angerami com a paisagem – de modo especial a marinha – se manifesta através de uma pintura simples, pura, mas resgatada pela inspiração numa condição absoluta de pensamento ou de idéia. Torna-se uma espécie de oferta de intermediação para uma nova condição do ser humano.

Na obra Memórias do Sítio, doada ao Museu de Arte do Parlamento de São Paulo, a inovação do artista consiste em, através da fantasia, estender sobre a visão captada um véu de silêncio que imobiliza a imagem num tempo definido, que, certamente, já transcorreu.
RETORNO AO EQUILIBRIO

por Loly Demercian

 

Evandro Angerami nasceu em São Paulo, formado Bacharel em Artes Visuais e licenciatura pela Unicentro Belas Artes/SP, frequentou ateliês de Rubens Matuck e Aldemir Martins e, em 2009, concluiu seu mestrado em artes visuais pelo New York Studio School of Painting Drawing and Sculpture/ EUA.

Expos em vários lugares, destacando-se: Pinacoteca Benedicto Calixto/ Santos, UNESP/SP, Galeria Valoart/SP, BEA Art Hall/EUA, Galeria Artconte/França dentre outros.

Em sua trajetória artística recebeu vários textos críticos que experimentados curadores, tais como Oscar D’Ambrósio, Emanuel Von Lauenstein Massarani e Flávio Viegas Amoreira.

Nessa exposição, “RETORNO AO EQUILÍBRIO”, faz uma coletânea de vários trabalhos plásticos retratando os mais variados lugares por onde viajou. Como ele mesmo diz: “… sou viajante, e trago memórias dentro de mim”.

Na visão de Oscar D’Ombrósio, o artista […] constrói, por meio de recursos plásticos, uma criação que transmite um sentimento de vazio existencial, que se preenche no momento em que o quadro é observado, revelando um processo de amadurecimento visual e um domínio na conjugação de diversas imagens. As telas de Evandro Angerami atingem justamente esse diálogo com o silêncio graças à habilidade de trabalhar com espaços amplos, em que a terra e o céu se articulam de modo a combinar-se numa espécie de paisagem que estimula a reflexão e propicia a passagem para uma nova dimensão. O resultado alcançado é a cristalização de um processo de construção da própria obra que passa por um progressivo mergulho no universo de valorização da técnica, dos materiais e da imagem como procedimento artístico e existencial.”.

Emanuel Von L Massarani, por sua vez, deixa assentado que […] o mundo pictórico de Angerami não é o da realidade atual. Enquanto as cidades se tornam inóspitas e fomentadoras de violências e neuroses, a tendência das obras desse artista é restituir as coisas ao homem na sua primitiva pureza. O jovem Angerami busca a essência da natureza e pinta paisagens infinitas, que se perdem da vista d’olhos até a linha do horizonte. Suas cores, vibram na luz intensa e as formas se fundem. Os espaços infinitos e os horizontes longilíneos constituem a expressão viva e palpitante da pintura cristalina de Angerami.”.

Concluo afirmando que Angerami, com muita sensibilidade humanística, dá sentido às coisas, ao mesmo tempo em que pode, por meio de um processo de recriação e releitura – e paradoxalmente – romper com a sua tradicional significação. A natureza funciona assim, uma constante busca do equilíbrio. Como diria Flávio Viegas Amoreira, é a mão do artista retocando ecos do divino.